A problemática do “bela, recatada e do lar”

Depois de quatro dias da infame publicação da Veja sobre a “quase primeira-dama” Marcela Temer, todos devem ter se deparado com uma infinidade de fotos com a hashtag #belarecatadaedolar. Apesar de ser quase impossível não estar ciente da polêmica, muitas pessoas ainda têm dúvidas quanto a razão que levou o artigo a despertar debates, discussões e protestos na internet.

Minha reflexão pode estar saindo tarde, mas achei importante utilizar este espaço para expor minha opinião.

Assim que vi a manchete “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar'”, revirei os olhos. Achei o título muito século XX, mas poderia ser só uma infelicidade de escolha de palavras. Após ler a matéria na íntegra, fica claro que não foi o caso. O texto é tão absurdo e caricato que quase parece deboche (não sei se foi ou não, então vou escrever como se não tivesse sido).

Marcela Temer é uma mulher de sorte

Na primeira frase já se pode perceber que a reportagem quer emitir uma opinião. Não foi Marcela que disse que é uma mulher de sorte, foi a autora. O modo como a jornalista desenvolve o texto dá a entender que o grande sonho de toda mulher é encontrar o mais rápido possível um homem experiente e que tenha condições de dar a ela uma vida de luxos com direito a encontros em lugares caros. Pode ser o sonho de algumas, mas não de todas. Isto é reduzir muito os desejos femininos e simplificar o significado de uma relação bem sucedida. Casamento não é a maior conquista que uma mulher pode ter e homem poderoso e com dinheiro não é sinônimo de bom marido.

Bela, recatada e “do lar”

O tal conjunto de característica que fez com que a polêmica explodisse pode parecer inocente, mas apresenta uma imagem retrógrada de que “mulher perfeita” é aquela dependente, pudica e linda.

O primeiro problema é restringir a personalidade e a vida da vice-primeira-dama à beleza e ao decoro sem nem ao menos ouvi-la. Marcela não foi entrevistada. Não sei se tentaram e ela se recusou a falar ou se nem foi procurada. Sem voz própria, os depoimentos sobre ela foram dados pelo cabeleireiro, estilista e alguns parentes. Marcela é descrita como um objeto decorativo cuja função é dedicar-se apenas aos cuidados com o filho, com a casa e com ela mesma (afinal, a beleza precisa ser assegurada), mantendo-se sempre afastada dos holofotes.

Outro ponto a ser discutido é o fato de apresentarem estes adjetivos como qualidades super valorizadas, quase como um “modelo a ser seguido”. Não existe nada de errado em ser bela, recatada e do lar, o problema é considerar como dignas apenas as mulheres que são assim.

Michel Temer é um homem de sorte

Após cinco parágrafos exaltando a formosura e decência de Marcela, a matéria é encerrada com a frase acima. Mais uma vez generalizando os desejos do gênero, desta vez o masculino, e reforçando o valor de uma mulher bela recatada e do lar. Como se todos procurassem mulheres neste padrão e como se essas características fossem essenciais na hora de escolher uma esposa.

20160422_104752Esta reportagem prova como ainda existe muito machismo incrustado na sociedade. O caminho da desconstrução é longo. Mas felizmente as mulheres estão cada vez mais conquistando seu espaço, sua voz e tendo consciência de que podem ser do lar, do bar, da ciência, das artes, do mundo… de onde elas quiserem! E ninguém tem nada a ver com isso.

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